9.3.14

Rendez-vous num outro tempo ...


                                                                              [29.09.09-10:30]

«Há anos que não entrava na Latina. Foi preciso um interregno entre duas horas de consulta para regressar.
É agradável  o ruído de louça que se toca e o cheiro intenso a caramelo louro.
Os clientes não falam alto; espalhados pelo largo salão parece que murmuram.
Em fundo, os frigoríficos ronronam e este intenso jogo de sons e cheiros, que a claridade da manhã tamiza docemente, resulta agradável, quase repousante.
Sempre apreciei este ambiente onde nunca me custou entrar. Passei largas horas na correcção de testes, completamente embrenhada nas múltiplas e variadas respostas dos muitos alunos. Aqui, sem esforço adicional, o tempo parecia escoar-se frutuosamente e sem problemas de perda de concentração porque quem entrava e saía, se levantava ou se sentava, o fazia de forma discreta.
Por felicidade, não há música ambiente e esse é mais um dos encantos desta sala de chá e onde, no longo corredor de entrada, se vende pão, bolos, pasteis, salgadinhos e onde, ao balcão, há  invariavelmente clientes  que tomam a bica .
No salão, a maioria das pessoas que entrou veio para estar e ficou conversando ou lendo.
Pedi o jornal, mas está ocupado. Fiquei então quieta, ouvindo, cheirando, observando, mesmo para fora, por entre as gelosias que dispersam suavemente a luz do sol ainda forte desta manhã de fim de Setembro.
Fora, passa gente pacífica que não passeia, mas também não se apressa. A esta hora, nesta zona antiga da cidade, e nesta altura do ano, quem passa não mostra pressa de viver, longe do stress de uma grande cidade, que já o é.
Passou uma meia hora, se tanto, e entraram agora grandes grupos, mais animados, mais barulhentos. Parecem sentir a necessidade de falarem mais alto para se ouvirem, mas prevalecem os pequenos grupos de meia-idade, sobretudo amigas, casais; uma jovem mãe com o seu bebé num carrinho minúsculo, acompanhada por uma rapariga com um rosto vivo e simpático; uma família com filhos adolescentes que mostram algum enfado por se encontrarem ali...àquela hora, ou naquelas circunstâncias, quem sabe o que se passará naquelas cabecinhas em ebulição, sempre ansiosas por descartar os adultos.
A empregada chegou  com o jornal.
Por momentos, absorta na leitura, os outros sentidos naturalmente se aquietam.
Mais uma meia hora  e chega a altura de pagar o chá e a tosta.
 Agradeço à empregada a cedência do jornal  e vou sair da Latina.
Agora nunca sei se volto, nem quando volto.
 Já não habito estes lugares.»


Sem comentários:

Enviar um comentário