3.11.14

Silenciar...


02.10.2014

Silenciei...
Por fim, emudeci 
ao tentar adormecer 
a dúvida maldita 
que aparecera durante a insónia 
de uma noite infinita:
«Fantasiei...»

Ávidos, na escuridão, 
brilhantes, secos,
desde então 
os meus olhos 
esqueceram de chorar,
ou  namorar as flores
ou fantasiar 
risos e amores.

No jardim, rosas deixaram de crescer
desbotadas sob o morrinho da chuva.
O granizo inclemente odiou-as;
fê-las ceder à força de espessas bátegas
arremessadas pelo vento como catapultas
ressoando sons graves de estranha sinfonia...
sons de uma guerra premente e dura
que o vento atiçava mais e mais
em sonoros e cavos trombos 
que provocavam depois rios de água e lama.

Assim passou mais um Verão.
Assim entrou o Outono. 

Ensimesmei.
Não precisava falar, quase pensar, analisar:
na sua estranheza,
fazia-o por mim a natureza:
chorava em silêncio o que eu já não sabia;
dialogava o que desaprendera 
numa lucidez perturbada de solidão derradeira. 

Essa dúvida-certeza... com dor calei.
Não gritei. 
Sobre ela não chorei: adormeci.
Correu o tempo breve...
Sem luz para interrogar o longe, o horizonte,
emudeci.


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